Eu sei, o trocadilho é ruim.
Mas acho que ele ilustra muito bem o objeto de análise do texto a seguir.
A Escrava Isaura, romance de Bernardo Guimarães, é um dos romances mais famosos do romantismo brasileiro, movimento ocorrido em terras tupiniquins no século XIX. A obra tornou Guimarães um dos mais referenciados autores de seu tempo, pois, embora não fuja aos padrões românticos de um modo geral, tornou sua obra peculiar por colocar sob os martírios da escravidão uma mulher branca, que atendia aos padrões de beleza e educação da aristocracia daquele século.
Dela, foram adaptadas duas telenovelas brasileiras. A primeira foi Escrava Isaura, de 1976, produzida pela TV Globo, alcançou imenso sucesso. Uma obra romântica sobre período escravocrata e anseios de liberdade em pleno regime ditatorial militar não tinha como ser diferente. A segunda foi A Escrava Isaura, novela produzida em 2004 pela TV Record, na fase de nascimento da tele-dramaturgia da emissora de Edir Macedo (curiosamente, a melhor fase da mesma).
Se hoje é possível dizer que todo ator em fim de carreira ou que a Globo não tem interesse vai para a Record (né José Meyer?), não se podia dizer isso na época em que A Escrava Isaura foi produzida. O elenco era simplesmente excelente, com Bianca Rinaldi e Leopoldo Pacheco nos papeis principais - Isaura e Leôncio - e nomes como Ewerton de Castro, Jackson Antunes (que depois fez Sinha Moça na Globo), Fábio Junqueira e o recém-falecido filho dele, Caio Junqueira (do Tropa de Elite, lembram?). O monstro sagrado Rubens de Falco, que encarnara Leôncio na adaptação global, também estava de volta, interpretando o pai do vilão, assim como Norma Blum, interprete de Malvina em 1976. Até Theo Becker (sim, o mesmo do "esse é irmão desse" na Fazenda) fazia um papel decente na novela, como o par romântico da heroína - uma pena que aquele findaria sendo o último.
Podemos dizer que a novela teve qualidade de produção excelente no nível técnico. Figurino e ambientações reproduzem bem o que seria uma sociedade no Império do Brasil do século XIX: foi utilizada como locação principal das gravações a Fazenda Santa Gertrudes, no interior de São Paulo, criada em 1854.
Se é possível dizer que em elenco e produção A Escrava Isaura da Record dava um show, não é possível dizer o mesmo da novela como obra de análise historiográfica ou em termos de roteiro e diálogos. Isso respeita o ponto de referência; pelo fato de ser um autor romântico e também pelo fato de estar circunscrito às limitações de compreensão da realidade por quem a vive em contemporaneidade, Bernardo Guimarães não tinha a perspectiva tão apurada em relação à sociedade escravocrata que se deve esperar de um historiador. A obra de 2004 até aborda certas questões interessantes, e até tem a chance de se aprofundar nelas mas não o faz; enquanto isso, aspectos problemáticos são completamente ignorados.
A abolição da escravidão é extremamente romantizada e obviamente não é retratada em todo o seu contexto, causas e consequências. Se hoje sabemos que o fim da escravidão teve motivos muito mais econômicos e políticos do que propriamente ideais de liberdade e fraternidade, esses valores ganham vida pulsante na novela. A vida dos escravos libertos não teve significativas melhorias em relação à escravidão; ao contrário, continuaram marginalizados socialmente, sem ter muitas condições de ascender socialmente. Este é um ponto que a novela aborda mas não se aprofunda, mas isso é compreensível até certo ponto.
Por outro lado, há um aspecto que poderia e deveria ser abordado, mas isso não é feito: a identidade cultural de matriz africana dos negros no Brasil é pouco ou nada explorada. Os negros professam a fé cristã/católica, e isso fica muito evidente principalmente nas personagens de Tio João (Ivan de Almeida) e Tia Joaquina (Chica Lopes), que demonstram imensa devoção ao deus judaico-cristão em vários momentos da novela. Isso seria interessante se viesse com a problematização da opressão cultural imposta aos negros pela sociedade na época, mas isso pouco é comentado, aparecendo apenas superficialmente em poucos diálogos da novela, e não há problematização alguma deste aspecto. Encontramos esse tipo de problematização bem fartamente em obras como Xica da Silva, da extinta TV Manchete; ali, as personagens afrodescendentes da novela fazem questão de professar a fé das religiões de matriz africana. E um dos negros afrontou a sociedade do Tejuco ao decidir não ser catequizado, e por isso foi queimado na fogueira. Embora houvesse uma diferença de aproximadamente 100 anos entre a sociedade brasileira abordada em Xica da Silva e A Escrava Isaura, as questões concernentes ao problema da escravidão leva-me a crer que esta problematização teria sido muito bem-vinda na obra dirigida por Herval Rossano.
Agora, no que concerne ao roteiro... A Escrava Isaura tem muitos altos e baixos.
Há algumas atuações magistrais e outras que cumprem bem o papel. Leopoldo Pacheco rouba a cena como o vilão devasso, com uma interpretação que faz você odiar Leôncio Almeida como poucos vilões na história da tele-dramaturgia brasileira. Bianca Rinaldi não faz feio no papel da heroína; Isaura - ao menos para mim - parece crível como a belíssima virgem do romance de Guimarães, e sabe contrapor bem sua angelicalidade com a posição social que ocupa - afinal, ela é, nas próprias palavras, "apenas uma escrava". A caracterização da personagem Belchior, vivido por Ewerton de Castro, é muito boa. O ator está simplesmente irreconhecível, e a interpretação também foi magistral, fazendo com que o personagem tivesse uma forte dose de "tragicomédia": ao mesmo tempo que as cenas dele são em geral feitas para gerar alívio cômico, você chega a sentir pena de como ele é judiado pelas outras personagens; apenas por Isaura ele não é ridicularizado. O pai de Isaura, Miguel, vivido por Jackson Antunes, também passa muita verdade em seu drama, fazendo-nos sentir muita empatia por sua sofrida luta para libertar sua filha. Patrícia França também é ótima como Rosa, sendo ela o contraponto de Isaura: uma mulher invejosa e farta em sentimentos ruins, e consegue entregar toda a carga dramática que se espera de uma mulher que, como a maioria das escravas na época, era estuprada pelos senhores ou seus feitores e capatazes ainda muito cedo. As adições de Rubens de Falco e Norma Blum, vindos direto da adaptação da Globo, também foram muito bem-vindas.
Mas o roteiro escrito por Tiago Santiago, em certos momentos, impõe tanta canastrice aos atores em alguns momentos que chega a doer os ouvidos de tanta artificialidade. Os atores André Fusko (Gabriel Albuquerque) e Gabriel Gracindo (Henrique Cunha) dão aula de como ser canastrão em vários momentos, com diálogos tão mal interpretados que só faltava eles dizerem pro diretor depois "viu como eu decorei o texto bem direitinho?". Tomásia, condessa de Campos, personagem de Mayara Magri, apesar de bem interpretada, às vezes parece não ter outra fala a não ser "o crápula do Leôncio". Sério, há momentos em que ela repete isso várias vezes na mesma cena!
E bem, chegamos àquele que, para mim, é o pior defeito dessa novela: os diálogos. Os personagens começam a fazer um resumo do que já aconteceu na novela, de maneira extremamente expositiva. Há momentos em que os atores praticamente deixam de atuar como seus personagens e começam a fazer verdadeiras reflexões sobre a injustiça no Brasil, sobre como os ricos nunca são punidos e como a lei só vale para os mais pobres. O curioso é que até entre os vilões rola esse tipo de diálogo, e essas cenas não são curtas e nada raras durante a novela. Não fosse uma obra de época, com uma mise-en-scene do século XIX, eu me acharia vendo, sei lá, um debate do Café Filosófico. Ou uma palestra de auto-ajuda.
No geral, A Escrava Isaura cumpre seu propósito como uma boa novela romântica com algum pano de fundo histórico, mas possui defeitos graves que, a meu ver, justificam o trocadilho do título. Estou dizendo que a novela é ruim? Jamais. Tem seus méritos. Mas como pessoa iniciada na história e como sujeito pensante, devo dizer que a novela é um delicioso guilty-pleasure (prazer condenável, traduzido literalmente do inglês) para mim.
(Winston Lecktor)
Se é possível dizer que em elenco e produção A Escrava Isaura da Record dava um show, não é possível dizer o mesmo da novela como obra de análise historiográfica ou em termos de roteiro e diálogos. Isso respeita o ponto de referência; pelo fato de ser um autor romântico e também pelo fato de estar circunscrito às limitações de compreensão da realidade por quem a vive em contemporaneidade, Bernardo Guimarães não tinha a perspectiva tão apurada em relação à sociedade escravocrata que se deve esperar de um historiador. A obra de 2004 até aborda certas questões interessantes, e até tem a chance de se aprofundar nelas mas não o faz; enquanto isso, aspectos problemáticos são completamente ignorados.
A abolição da escravidão é extremamente romantizada e obviamente não é retratada em todo o seu contexto, causas e consequências. Se hoje sabemos que o fim da escravidão teve motivos muito mais econômicos e políticos do que propriamente ideais de liberdade e fraternidade, esses valores ganham vida pulsante na novela. A vida dos escravos libertos não teve significativas melhorias em relação à escravidão; ao contrário, continuaram marginalizados socialmente, sem ter muitas condições de ascender socialmente. Este é um ponto que a novela aborda mas não se aprofunda, mas isso é compreensível até certo ponto.
Por outro lado, há um aspecto que poderia e deveria ser abordado, mas isso não é feito: a identidade cultural de matriz africana dos negros no Brasil é pouco ou nada explorada. Os negros professam a fé cristã/católica, e isso fica muito evidente principalmente nas personagens de Tio João (Ivan de Almeida) e Tia Joaquina (Chica Lopes), que demonstram imensa devoção ao deus judaico-cristão em vários momentos da novela. Isso seria interessante se viesse com a problematização da opressão cultural imposta aos negros pela sociedade na época, mas isso pouco é comentado, aparecendo apenas superficialmente em poucos diálogos da novela, e não há problematização alguma deste aspecto. Encontramos esse tipo de problematização bem fartamente em obras como Xica da Silva, da extinta TV Manchete; ali, as personagens afrodescendentes da novela fazem questão de professar a fé das religiões de matriz africana. E um dos negros afrontou a sociedade do Tejuco ao decidir não ser catequizado, e por isso foi queimado na fogueira. Embora houvesse uma diferença de aproximadamente 100 anos entre a sociedade brasileira abordada em Xica da Silva e A Escrava Isaura, as questões concernentes ao problema da escravidão leva-me a crer que esta problematização teria sido muito bem-vinda na obra dirigida por Herval Rossano.
Agora, no que concerne ao roteiro... A Escrava Isaura tem muitos altos e baixos.
Há algumas atuações magistrais e outras que cumprem bem o papel. Leopoldo Pacheco rouba a cena como o vilão devasso, com uma interpretação que faz você odiar Leôncio Almeida como poucos vilões na história da tele-dramaturgia brasileira. Bianca Rinaldi não faz feio no papel da heroína; Isaura - ao menos para mim - parece crível como a belíssima virgem do romance de Guimarães, e sabe contrapor bem sua angelicalidade com a posição social que ocupa - afinal, ela é, nas próprias palavras, "apenas uma escrava". A caracterização da personagem Belchior, vivido por Ewerton de Castro, é muito boa. O ator está simplesmente irreconhecível, e a interpretação também foi magistral, fazendo com que o personagem tivesse uma forte dose de "tragicomédia": ao mesmo tempo que as cenas dele são em geral feitas para gerar alívio cômico, você chega a sentir pena de como ele é judiado pelas outras personagens; apenas por Isaura ele não é ridicularizado. O pai de Isaura, Miguel, vivido por Jackson Antunes, também passa muita verdade em seu drama, fazendo-nos sentir muita empatia por sua sofrida luta para libertar sua filha. Patrícia França também é ótima como Rosa, sendo ela o contraponto de Isaura: uma mulher invejosa e farta em sentimentos ruins, e consegue entregar toda a carga dramática que se espera de uma mulher que, como a maioria das escravas na época, era estuprada pelos senhores ou seus feitores e capatazes ainda muito cedo. As adições de Rubens de Falco e Norma Blum, vindos direto da adaptação da Globo, também foram muito bem-vindas.Mas o roteiro escrito por Tiago Santiago, em certos momentos, impõe tanta canastrice aos atores em alguns momentos que chega a doer os ouvidos de tanta artificialidade. Os atores André Fusko (Gabriel Albuquerque) e Gabriel Gracindo (Henrique Cunha) dão aula de como ser canastrão em vários momentos, com diálogos tão mal interpretados que só faltava eles dizerem pro diretor depois "viu como eu decorei o texto bem direitinho?". Tomásia, condessa de Campos, personagem de Mayara Magri, apesar de bem interpretada, às vezes parece não ter outra fala a não ser "o crápula do Leôncio". Sério, há momentos em que ela repete isso várias vezes na mesma cena!
E bem, chegamos àquele que, para mim, é o pior defeito dessa novela: os diálogos. Os personagens começam a fazer um resumo do que já aconteceu na novela, de maneira extremamente expositiva. Há momentos em que os atores praticamente deixam de atuar como seus personagens e começam a fazer verdadeiras reflexões sobre a injustiça no Brasil, sobre como os ricos nunca são punidos e como a lei só vale para os mais pobres. O curioso é que até entre os vilões rola esse tipo de diálogo, e essas cenas não são curtas e nada raras durante a novela. Não fosse uma obra de época, com uma mise-en-scene do século XIX, eu me acharia vendo, sei lá, um debate do Café Filosófico. Ou uma palestra de auto-ajuda.
No geral, A Escrava Isaura cumpre seu propósito como uma boa novela romântica com algum pano de fundo histórico, mas possui defeitos graves que, a meu ver, justificam o trocadilho do título. Estou dizendo que a novela é ruim? Jamais. Tem seus méritos. Mas como pessoa iniciada na história e como sujeito pensante, devo dizer que a novela é um delicioso guilty-pleasure (prazer condenável, traduzido literalmente do inglês) para mim.
(Winston Lecktor)