terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Rupi Kaur e seus jeitos de fazer arte

Há mais ou menos um ano ouvi falar dessa escritora indiana que mora em Toronto, Canadá. Foi uma surpresa, e uma boa surpresa. Apesar de ser fã de poesia falada, não conhecia o trabalho dela, muito menos sua tão conhecida página no Instagram, onde Rupi ficou conhecida após postar suas poesias de mansinho. Após indicação da linda Jout Jout, do canal Jou Jout prazer e de me deparar com seu primeiro livro todas as vezes que entrava em uma livraria (sim, pois o primeiro livro da autora ocupou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times, vendendo mais de 500 mil cópias) decidi comprá-lo. E foi uma das minhas leituras mais prazerosas do ano de 2018 (apesar do livro ter sido lançado em 2014, #delay). 

Ao ler Milk and Honey, seu primeiro livro, que no Brasil ganhou o título sugestivo Outros jeitos de usar a boca, me encantei e me perguntei: porque não a conheci antes?

À primeira vista, o livro parece sugerir poemas de teor sensual, o que não é falso, pois podemos encontrar vários poemas sensuais e insinuantes, no entanto, ao abrirmos o livro, nos deparamos com uma orelha e o primeiro poema que diz "aqui está a jornada de/ sobrevivência pela poesia/ aqui está o sangue suor lágrimas/ de vinte e um anos/ aqui está o meu coração/ em suas mãos/ aqui está/ o amor/ a dor/ a ruptura/ a cura." Neste poema introdutório, Kaur, de certa forma, nos avisa do que estamos prestes a fazer: entrar numa jornada durante a qual choraremos muito. O título sugestivo ajuda a vender, mas seu conteúdo nos faz voltar ao primeiro amor com a poesia. Ao ler Outros jeitos de usar a boca, lemos sobre amor, violência, traumas, auto-afirmação, auto-conhecimento, auto-aceitação e empoderamento.


É impossível não levar um soco a cada poema, principalmente se você é mulher. Como boa feminista, Rupi Kaur fala sobre os pesares de ser mulher numa sociedade machistaa,na qual nós mulheres somos levadas a acreditar, nas palavras da própria poetiza, que nossos corpos são feitos para "dar aos que quisessem [que nos sentíssemos] qualquer coisa/ menos inteira[s]."

Outros jeitos de usar a boca, escrito e ilustrado por Rupi, divide-se, como denuncia o poema introdutório, em quatro partes: a dor, o amor, a ruptura e a cura, respectivamente. 

Na dor, literalmente, Rupi escreve sobre a relação de pais e filhas, de abuso, e da forma como aprendeu, errado, como uma mulher devia ser tratada na sociedade. Em suma, a autora conta da dor de relacionamentos abusivos e tóxicos e dolorosos com os homens de sua vida.

No amor, Rupi escreve sobre o amor materno e os amores românticos, que apesar disso, não deixam de ser amores empoderadores, como no poema "não quero ter você/ para preencher minhas partes vazias/ quero ser plena sozinha / quero ser tão completa/ que poderia iluminar a cidade/ e só aí/ quero ter você/ porque nós dois juntos/ botamos fogo em tudo." Rupi nos faz querer esse amor. Além de poemas fortes que inspiram um relacionamento saudável, vemos desenhos que propõem genitálias no ápice do sexo, bocas, corpos que se tocam, roupas ao chão, silhuetas. Todas as peças necessárias para alguns poemas do livro conterem uma experiência diferente.

Na ruptura, o apego e a partida de quem se ama. Nessa parte encontramos poemas amorosos de saudade, mas que também demonstram uma dependência quase que total do ser amado. No entanto, mais uma vez traz o empoderamento de forma a trazer força e consolo ao coração que foi partido, terminando com o poema "o jeito como vão embora diz tudo".

Na cura, Rupi finalmente no leva numa jornada de amor e respeito próprio, onde redescobrirmos a força de sermos belos em nossa individualidade e da importância de não depender do outro para ser feliz.

Em todas as partes, a autora nos dá um show de poesia e de arte visual, com ilustrações sugestivos e propõem uma sensualidade que, particularmente, nunca vi em uma livro antes. E um show para o cérebro e para os olhos. 

(Por Menina Huxley)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Resenha: "Dragon Ball Super: Broly"

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É incrível como esse gênero de animes shounen tem se reciclado a um ponto tal em que franquias como Dragon Ball, One Piece, Jojo's Bizarre Adventure e até mesmo obras não tão badaladas/aclamadas, como Saint Seiya (Cavaleiros do Zodíaco), em geral quase quarentonas, possuem lançamentos recentes e bem atuais. Afinal, este é um gênero tido por muitos como antiquado e simplório, de tramas  em geral pouco desenvolvidas, personagens clichê e um foco bem forte nas lutas.

O exemplo mais interessante do sucesso dos shounen dos anos 1980 nos dias atuais é, sem dúvida, Dragon Ball. A franquia soube se renovar e produziu o recente anime Dragon Ball Super, que ficou no ar por três anos ininterruptos e conseguiu, sobretudo nos episódios finais, uma audiência comovente nos países ocidentais, sobretudo na América latina, onde Goku e c&a são muito populares. Algumas localidades nesses países - e aqui no Brasil também - organizaram verdadeiros eventos de exibição dos episódios finais do Torneio do Poder, levando multidões de pessoas para assistirem a luta final do anime. Apesar disso, o anime entrou em hiato, restando a nós apenas especular sobre uma eventual volta em 2019.

Mas já no começo de 2018, pouco antes do fim da série, a TOEI Animation havia anunciado que um novo filme de Dragon Ball seria lançado, no mês de dezembro. Especulações davam conta de que Yamoshi, um dos primeiros da raça seria explorado nesse novo filme. Mais adiante, porém, o nome do mesmo foi anunciado: "Dragon Ball Super: Broly". O longa abordaria a história de Broly, um personagem já existente e que havia sido utilizado em três longas da franquia. A expectativa da audiência, então, se dividiu: alguns achavam que era uma péssima ideia canonizar Broly, já que ele era, de fato, um péssimo personagem em seus filmes como antagonista. Outros já eram mais otimistas, vendo na volta do personagem uma oportunidade para que ele fosse melhor trabalhado.

Felizmente, não demorou muito para que a TOEI e a Fox Film do Brasil anunciassem a chegada do filme às telonas brasileiras em 2019. E o melhor: localizado pela UniDub, de propriedade de Wendel Bezerra (a voz original do Goku), um estúdio conhecido pela imensa qualidade dos trabalhos de dublagem.

Mas bem, chega de enrolação. Vamos ao que viemos. Afinal de contas... é isso tudo mesmo?

Bem... Sem muita enrolação: Sim, o filme é muito bom. 

Em primeiro lugar, o já citado trabalho de dublagem é excelente, com todas as vozes clássicas que estavam disponíveis. Os atores de voz estão super à vontade em seus personagens, com destaque para Alfredo Rollo na voz do Vegeta, que parece ter conseguido o tom de voz ideal para o personagem, num nível próximo ao já visto em Dragon Ball Z e o excelente trabalho do Dado Monteiro, voltando a fazer a voz do Broly. Menção honrosa aqui para Felipe Grinnan, na voz do Whis, pois produz algumas das cenas mais divertidas da série desde "Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses", em 2014. De fato, é um dos maiores achados da franquia desde então. Algumas substituições de vozes foram feitas, mas não chegam a comprometer a qualidade do produto final. O caso mais notório foi a substituição da voz do Goten, mas ele só tem uma ou duas falas. 

Mas vamos lá: Como já dito, é muito bom. Talvez o melhor produto audiovisual de Dragon Ball já feito. A animação consegue manter um nível de qualidade excelente durante toda a fita, mantendo uma ótima dinâmica entre os estilos de animação a cada momento. É possível identificar as diferenças entre esses estilos a cada momento, o que é, sem dúvida, muito interessante, ainda mais considerando que o nível se mantém.

O longa segue a estrutura de três atos, mas aqui ele tem uma destoada que pode incomodar algumas pessoas. Era pretendido que a fita fosse mais longa, mas teve a duração reduzida para 1h41min. Ainda assim, é o filme mais longo da franquia. Contudo, isso parece ter prejudicado um pouco a estrutura narrativa, com um primeiro ato que, embora excelente, é muito longo, um segundo ato que oscila entre o razoável e o bom e um terceiro ato um tanto quanto atabalhoado.

O primeiro ato mostra parte da história contada no mangá Dragon Ball Minus, onde tivemos uma nova perspectiva de Bardock (pai de Goku) e, pela primeira vez, o contato com a mãe de Goku, Gine. Aqui, precisamos enaltecer a sensibilidade do roteiro, mostrando um Bardock muito mais sensível e preocupado com seu filho Kakarotto. Isso adicionou uma ótima camada de profundidade ao personagem. Nesse primeiro ato, também nos é mostrado um pouco mais do conceito visual do universo em Dragon Ball. A exploração de lugares longínquos e estranhos remete muito a space operas como Star Wars e Star Trek, o que é uma ótima sacada. Também vemos a construção do antagonista principal, Broly, em sua relação com seu pai, Paragus, que é um dos pontos fortes da trama e que discutiremos mais adiante.

Daí pra frente, o roteiro se utiliza muito bem do humor característico de Akira Toriyama, criador da série, para produzir cenas hilárias e que aproveitam bastante a subversão da expectativa. Alguns fãs que conhecem outras obras de Toriyama, em especial o humorístico Nekomajin, vão perceber essa pegada de humor, presente, sobretudo, nas personagens da Bulma e do Freeza. Falando em Freeza, o imperador do mal parece ter sido melhor trabalhado desde o final de Dragon Ball Super, e não me espantaria se, mais pra frente, ele se tornasse muito mais um arquirrival de Goku & Vegeta do que propriamente um vilão. 

Da segunda metade do segundo ato pra frente, porém, é porradaria até o final. As cenas de luta seguem um ritmo de tirar o fôlego, aliado a um espetáculo visual de cair o queixo, tanto das animações quanto dos efeitos visuais das transformações e poderes dos personagens. Aqui, também, entendemos um pouco mais sobre a construção de Broly como personagem, com o roteiro abordando a temática da relação abusiva entre pai & filho com uma delicadeza pouco antes vista em Dragon Ball. No filme, Broly é sistematicamente abusado por seu pai, Paragus, que faz, de forma figurada e literal, um tratamento de choque com seu filho, utilizando-o simplesmente como uma escada para satisfazer suas próprias ambições e vinganças. 

Mas, como dito anteriormente, a duração do projeto prejudica a organização dos três atos, e isso aqui é sentido na forma como o roteiro avança. O desenvolvimento do antagonista numa estrutura de Deus Ex Machina pode até não ser exatamente ruim, já que é muito consonante com o que já vimos em Dragon Ball Super, mas acredito que pesaram um pouco a mão nesse aspecto, tornando o desenvolvimento de Broly rápido demais até mesmo para os padrões do anime. E isso é sentido principalmente no terceiro ato, no qual cenas que - a meu ver - deveriam ter mais tempo de tela (porque são vendidas como simbólicas no trailer e parecem ter grande impacto), ocupam apenas pouquíssimos segundos na fita total. Esse aspecto, porém, não chega a comprometer a qualidade do produto final. 

O filme está sendo aclamado pela crítica em geral como sendo o melhor da franquia, e está levando muita gente ao cinema. Na sala onde eu estava, tinha até uma boa quantidade de crianças e adolescentes, embora o maior percentual de público deste filme seja de adultos. Houve algumas preocupações com a pirataria, mas o resultado da bilheteria mostra que Dragon Ball ainda é muito amado no país e que há público-alvo para filmes e jogos da franquia em terras tupiniquins. 

No final das contas, Dragon Ball Super: Broly é um ótimo produto, digno de ser prestigiado no cinema, e vale cada centavo e tempo gastos para tanto.

Sendo assim, fica a dica: se vocês querem que mais produções de Dragon Ball e animes como um todo cheguem ao Brasil, VÃO PRESTIGIAR ESSE FILME NO CINEMA! 

E, se possível, comprem o DVD/Bluray também, se for lançado.

(Winston Lecktor)