segunda-feira, 27 de maio de 2019

Jessica Jones S02 - Que lições extrair?

Quem hoje está ansioso pelas séries Marvel no novo serviço de streaming Disney Plus certamente ficará órfão de algumas séries em particular.

Pois lá pelos idos de 2015 - parece já fazer muito tempo - fomos agraciados pela expansão do Universo Cinematográfico Marvel para a Netflix. 

Uma parceria inédita entre a Disney - através Casa das Ideias e o serviço de streaming que, até então, era a sensação do momento.

À época, este vínculo rendeu cinco seriados no que se convencionou chamar de núcleo urbano do UCM: Demolidor, Jessica Jones, Luke CagePunho de Ferro e a série que uniu os quatro personagens-título: Os Defensores

Esses heróis traziam uma narrativa completamente destoante dos filmes, o que findava sendo muito legal devido tanto a falta de maiores consequências das ações dos personagens no universo cinematográfico, quanto a presença de discussões de temas mais adultos, o que tornava essas séries menos preocupadas em atrair todos os tipos de público.

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Entre as quatro, pode-se dizer que quem mais se destacou nesse sentido foi, sem dúvida, a série da Jessica Jones. A primeira temporada primou pela excelência neste aspecto do roteiro, fosse pela presença dessa discussão muito mais proeminente do que nas séries "irmãs", especialmente sobre homossexualidade - e em particular a feminina, geralmente menos aceita pelo público em geral - fosse pela existência de um vilão que consegue ser, ao mesmo tempo, extremamente carismático e repugnante. 

Jessica Jones apresenta cenas de homossexualidade sem pudor algum e discute abertamente os temas de abuso psicológico e sexual. A personagem que dá título ao seriado vive com as sequelas do controle mental de Kilgrave, o Homem-Púrpura. Esses plots fizeram a série ficar bastante popular entre os meios feminista e LGBTQ+ à época. E com ótimas razões para tal. 
As atuações eram irretocáveis e o elenco, primoroso. Krysten Ritter arrebentava no papel da heroína, Carrie-Anne Moss (Matrix) era simplesmente incrível como Jeri Hogarth. Mas quem roubava mesmo a cena era David Tennant. Seu Homem-Púrpura era sem dúvida um dos maiores vilões do UCM. E até hoje acho que ele está no panteão dos maiores vilões, junto com Loki, Killmonger e Thanos.

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A primeira temporada, porém, não era perfeita. O roteiro, apesar de ter grandes acertos - sobretudo os citados acima, tinha um grande defeito: o ritmo era lento. Devagar quase parando. E uma vez que praticamente todos os episódios giravam em torno da problemática entre a heroína e o vilão, os 13 episódios findaram parecendo um filme gigante.

Mas... e a segunda temporada, hein?

Então... temos algumas coisas pra nos debruçar a respeito...

Vamos logo meter os pés na porta: a segunda temporada é claramente inferior à primeira.

O roteiro é pouquíssimo objetivo nos episódios iniciais. Assistir aos primeiros cinco episódios da segunda temporada é simplesmente uma tarefa homérica. Não há grandes acontecimentos, o ritmo é absolutamente inconsistente e não temos muita noção do que é que vai realmente ser o grande plot até mais ou menos o quinto ou sexto episódio. E, exceção feita a uma coisa muito específica - que comentarei adiante - não deixa ganchos muito interessantes para a temporada seguinte, que já está confirmada.

Em resumo: a primeira metade da S02 é chata, sonífera e poderia, em grande parte, não existir, sem grandes perdas para a série como um todo.

Nos treze episódios iniciais tínhamos a sensação de novidade nas discussões sobre temas feministas e LGBTQ+ acima citados. Aqui, contudo, a novidade não somente já não é mais novidade mas também pode ganhar ares de exploitation para alguns. Há uma cena de homossexualidade da Jeri Hogarth em um dos episódios que dura algo em torno de quatro minutos e que parece ter ares de "fetichização". Incomoda-me a sexualidade da dita cuja? De maneira nenhuma. Mas ajuda a compor a falta de objetividade da série com relação ao plot central.

Aliás... falando em Jeri Hogarth... esse é outro problema. A personagem de Anne Moss pouco acrescenta ao núcleo central da história da temporada. Do sexto episódio pra frente ela poderia sumir, pois sua subtrama se torna tão desconexa desse núcleo que, apesar de ser interessante e até divertida em algumas cenas, a ausência de conexão me incomodou bastante. Deixaria um furo de roteiro? Deixaria... mas quer saber? A própria série não se preocupa muito em aproximar Jeri de Jessica, Trish e Malcolm até os episódios finais... por que eu, como público, me preocuparia mais?

Mas nem tudo são defeitos. 

Imagem relacionadaAs atuações, por exemplo, continuam impecáveis. O domínio de Ritter sobre a personagem é irretocável. Anne Moss, Rachael Taylor (Trish) e Eka Darville (Malcolm) estão excelentes em seus papeis. Aqui, contudo, sentimos uma falta: David Tennant retornou para apenas um episódio, o que foi - ao menos para mim - decepcionante. Isso fez com que o episódio em que Kilgrave "retornou" um dos melhores da temporada como um todo, mas também o fez um tanto desconexo do restante. A influência do Homem-Púrpura na mente de Jessica poderia ter sido muito melhor trabalhada ao  longo dos episódios, como foi a do Rei do Crime na mente de Matt Murdock em Demolidor S03, por exemplo.

Se nos episódios iniciais a trama beira o desinteressante, da metade para o fim a série ganha um ímpeto gigantesco. A problemática de Jessica com sua mãe, Alisa Campbell Jones (Janet McTeer) e a relação amorosa/sexual com Oscar Arocho (J.R. Ramirez) , síndico do prédio, mostram lados da investigadora que a série até então pouco havia explorado. E dão energia e substância aos episódios finais, fazendo com que fiquem muito interessantes.

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Antes vimos a heroína sempre muito sisuda e se esforçando para cuidar do próprio nariz sem dar muito espaço para relações em sua vida, seja através de investigações particulares, alcoolismo ao extremo e sexo com estranhos. Aqui vemos Jessica frágil, querendo desabar nos braços de alguém e desejando ser cuidada, o que é uma abordagem sensível e que demonstra importante e notável tato do roteiro e da direção para com a personagem, além de acrescentar camadas a ela. 

O final da série ajuda ainda mais a concretizar essa abordagem, dando a Jessica o vislumbre de uma vida familiar que até então tanto ela quanto nós, o público, achávamos um tanto impensável para os padrões da personagem. Esse é o gancho mais importante para a terceira temporada. Mas querem saber? Essa continuação nem precisaria existir. Jessica teve, apesar de alguns pesares, um final dignificante e adorável. A série poderia terminar aí.

Ainda mais sabendo do fato que tanto esta quanto todas as outras séries Marvel-Netflix foram canceladas.

Jessica Jones poderia ter terminado, definitivamente, com um final um tanto brega, mas bonito e recompensador para todas as pelejas que a personagem passou ao longo dessas duas temporadas.

Mas vai terminar que nem a franquia dos X-Men da Fox no cinema: provavelmente num clima de fim de feira.

(Winston Lecktor)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Uma novela de "pépoca"

Eu sei, o trocadilho é ruim.

Mas acho que ele ilustra muito bem o objeto de análise do texto a seguir.

A Escrava Isaura, romance de Bernardo Guimarães, é um dos romances mais famosos do romantismo brasileiro, movimento ocorrido em terras tupiniquins no século XIX. A obra tornou Guimarães um dos mais referenciados autores de seu tempo, pois, embora não fuja aos padrões românticos de um modo geral, tornou sua obra peculiar por colocar sob os martírios da escravidão uma mulher branca, que atendia aos padrões de beleza e educação da aristocracia daquele século.

Dela, foram adaptadas duas telenovelas brasileiras. A primeira foi Escrava Isaura, de 1976, produzida pela TV Globo, alcançou imenso sucesso. Uma obra romântica sobre período escravocrata e anseios de liberdade em pleno regime ditatorial militar não tinha como ser diferente. A segunda foi A Escrava Isaura, novela produzida em 2004 pela TV Record, na fase de nascimento da tele-dramaturgia da emissora de Edir Macedo (curiosamente, a melhor fase da mesma).


Imagem relacionadaSe hoje é possível dizer que todo ator em fim de carreira ou que a Globo não tem interesse vai para a Record (né José Meyer?), não se podia dizer isso na época em que A Escrava Isaura foi produzida. O elenco era simplesmente excelente, com Bianca Rinaldi e Leopoldo Pacheco nos papeis principais - Isaura e Leôncio - e nomes como Ewerton de Castro, Jackson Antunes (que depois fez Sinha Moça na Globo), Fábio Junqueira e o recém-falecido filho dele, Caio Junqueira (do Tropa de Elite, lembram?). O monstro sagrado Rubens de Falco, que encarnara Leôncio na adaptação global, também estava de volta, interpretando o pai do vilão, assim como Norma Blum, interprete de Malvina em 1976. Até Theo Becker (sim, o mesmo do "esse é irmão desse" na Fazenda) fazia um papel decente na novela, como o par romântico da heroína - uma pena que aquele findaria sendo o último.

Podemos dizer que a novela teve qualidade de produção excelente no nível técnico. Figurino e ambientações reproduzem bem o que seria uma sociedade no Império do Brasil do século XIX: foi utilizada como locação principal das gravações a Fazenda Santa Gertrudes, no interior de São Paulo, criada em 1854.

Se é possível dizer que em elenco e produção A Escrava Isaura da Record dava um show, não é possível dizer o mesmo da novela como obra de análise historiográfica ou em termos de roteiro e diálogos. Isso respeita o ponto de referência; pelo fato de ser um autor romântico e também pelo fato de estar circunscrito às limitações de compreensão da realidade por quem a vive em contemporaneidade, Bernardo Guimarães não tinha a perspectiva tão apurada em relação à sociedade escravocrata que se deve esperar de um historiador. A obra de 2004 até aborda certas questões interessantes, e até tem a chance de se aprofundar nelas mas não o faz; enquanto isso, aspectos problemáticos são completamente ignorados.

A abolição da escravidão é extremamente romantizada e obviamente não é retratada em todo o seu contexto, causas e consequências. Se hoje sabemos que o fim da escravidão teve motivos muito mais econômicos e políticos do que propriamente ideais de liberdade e fraternidade, esses valores ganham vida pulsante na novela. A vida dos escravos libertos não teve significativas melhorias em relação à escravidão; ao contrário, continuaram marginalizados socialmente, sem ter muitas condições de ascender socialmente. Este é um ponto que a novela aborda mas não se aprofunda, mas isso é compreensível até certo ponto.

Por outro lado, há um aspecto que poderia e deveria ser abordado, mas isso não é feito: a identidade cultural de matriz africana dos negros no Brasil é pouco ou nada explorada. Os negros professam a fé cristã/católica, e isso fica muito evidente principalmente nas personagens de Tio João (Ivan de Almeida) e Tia Joaquina (Chica Lopes), que demonstram imensa devoção ao deus judaico-cristão em vários momentos da novela. Isso seria interessante se viesse com a problematização da opressão cultural imposta aos negros pela sociedade na época, mas isso pouco é comentado, aparecendo apenas superficialmente em poucos diálogos da novela, e não há problematização alguma deste aspecto. Encontramos esse tipo de problematização bem fartamente em obras como Xica da Silva, da extinta TV Manchete; ali, as personagens afrodescendentes da novela fazem questão de professar a fé das religiões de matriz africana. E um dos negros afrontou a sociedade do Tejuco ao decidir não ser catequizado, e por isso foi queimado na fogueira. Embora houvesse uma diferença de aproximadamente 100 anos entre a sociedade brasileira abordada em Xica da Silva e A Escrava Isaura, as questões concernentes ao problema da escravidão leva-me a crer que esta problematização teria sido muito bem-vinda na obra dirigida por Herval Rossano.

Agora, no que concerne ao roteiro... A Escrava Isaura tem muitos altos e baixos.

Resultado de imagem para isaura e leoncioHá algumas atuações magistrais e outras que cumprem bem o papel. Leopoldo Pacheco rouba a cena como o vilão devasso, com uma interpretação que faz você odiar Leôncio Almeida como poucos vilões na história da tele-dramaturgia brasileira. Bianca Rinaldi não faz feio no papel da heroína; Isaura - ao menos para mim - parece crível como a belíssima virgem do romance de Guimarães, e sabe contrapor bem sua angelicalidade com a posição social que ocupa - afinal, ela é, nas próprias palavras, "apenas uma escrava". A caracterização da personagem Belchior, vivido por Ewerton de Castro, é muito boa. O ator está simplesmente irreconhecível, e a interpretação também foi magistral, fazendo com que o personagem tivesse uma forte dose de "tragicomédia": ao mesmo tempo que as cenas dele são em geral feitas para gerar alívio cômico, você chega a sentir pena de como ele é judiado pelas outras personagens; apenas por Isaura ele não é ridicularizado. O pai de Isaura, Miguel, vivido por Jackson Antunes, também passa muita verdade em seu drama, fazendo-nos sentir muita empatia por sua sofrida luta para libertar sua filha. Patrícia França também é ótima como Rosa, sendo ela o contraponto de Isaura: uma mulher invejosa e farta em sentimentos ruins, e consegue entregar toda a carga dramática que se espera de uma mulher que, como a maioria das escravas na época, era estuprada pelos senhores ou seus feitores e capatazes ainda muito cedo. As adições de Rubens de Falco e Norma Blum, vindos direto da adaptação da Globo, também foram muito bem-vindas.

Mas o roteiro escrito por Tiago Santiago, em certos momentos, impõe tanta canastrice aos atores em alguns momentos que chega a doer os ouvidos de tanta artificialidade. Os atores André Fusko (Gabriel Albuquerque) e Gabriel Gracindo (Henrique Cunha) dão aula de como ser canastrão em vários momentos, com diálogos tão mal interpretados que só faltava eles dizerem pro diretor depois "viu como eu decorei o texto bem direitinho?". Tomásia, condessa de Campos, personagem de Mayara Magri, apesar de bem interpretada, às vezes parece não ter outra fala a não ser "o crápula do Leôncio". Sério, há momentos em que ela repete isso várias vezes na mesma cena!

E bem, chegamos àquele que, para mim, é o pior defeito dessa novela: os diálogos. Os personagens começam a fazer um resumo do que já aconteceu na novela, de maneira extremamente expositiva. Há momentos em que os atores praticamente deixam de atuar como seus personagens e começam a fazer verdadeiras reflexões sobre a injustiça no Brasil, sobre como os ricos nunca são punidos e como a lei só vale para os mais pobres. O curioso é que até entre os vilões rola esse tipo de diálogo, e essas cenas não são curtas e nada raras durante a novela. Não fosse uma obra de época, com uma mise-en-scene do século XIX, eu me acharia vendo, sei lá, um debate do Café Filosófico. Ou uma palestra de auto-ajuda.

No geral, A Escrava Isaura cumpre seu propósito como uma boa novela romântica com algum pano de fundo histórico, mas possui defeitos graves que, a meu ver, justificam o trocadilho do título. Estou dizendo que a novela é ruim? Jamais. Tem seus méritos. Mas como pessoa iniciada na história e como sujeito pensante, devo dizer que a novela é um delicioso guilty-pleasure (prazer condenável, traduzido literalmente do inglês) para mim.

(Winston Lecktor)

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Rupi Kaur e seus jeitos de fazer arte

Há mais ou menos um ano ouvi falar dessa escritora indiana que mora em Toronto, Canadá. Foi uma surpresa, e uma boa surpresa. Apesar de ser fã de poesia falada, não conhecia o trabalho dela, muito menos sua tão conhecida página no Instagram, onde Rupi ficou conhecida após postar suas poesias de mansinho. Após indicação da linda Jout Jout, do canal Jou Jout prazer e de me deparar com seu primeiro livro todas as vezes que entrava em uma livraria (sim, pois o primeiro livro da autora ocupou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times, vendendo mais de 500 mil cópias) decidi comprá-lo. E foi uma das minhas leituras mais prazerosas do ano de 2018 (apesar do livro ter sido lançado em 2014, #delay). 

Ao ler Milk and Honey, seu primeiro livro, que no Brasil ganhou o título sugestivo Outros jeitos de usar a boca, me encantei e me perguntei: porque não a conheci antes?

À primeira vista, o livro parece sugerir poemas de teor sensual, o que não é falso, pois podemos encontrar vários poemas sensuais e insinuantes, no entanto, ao abrirmos o livro, nos deparamos com uma orelha e o primeiro poema que diz "aqui está a jornada de/ sobrevivência pela poesia/ aqui está o sangue suor lágrimas/ de vinte e um anos/ aqui está o meu coração/ em suas mãos/ aqui está/ o amor/ a dor/ a ruptura/ a cura." Neste poema introdutório, Kaur, de certa forma, nos avisa do que estamos prestes a fazer: entrar numa jornada durante a qual choraremos muito. O título sugestivo ajuda a vender, mas seu conteúdo nos faz voltar ao primeiro amor com a poesia. Ao ler Outros jeitos de usar a boca, lemos sobre amor, violência, traumas, auto-afirmação, auto-conhecimento, auto-aceitação e empoderamento.


É impossível não levar um soco a cada poema, principalmente se você é mulher. Como boa feminista, Rupi Kaur fala sobre os pesares de ser mulher numa sociedade machistaa,na qual nós mulheres somos levadas a acreditar, nas palavras da própria poetiza, que nossos corpos são feitos para "dar aos que quisessem [que nos sentíssemos] qualquer coisa/ menos inteira[s]."

Outros jeitos de usar a boca, escrito e ilustrado por Rupi, divide-se, como denuncia o poema introdutório, em quatro partes: a dor, o amor, a ruptura e a cura, respectivamente. 

Na dor, literalmente, Rupi escreve sobre a relação de pais e filhas, de abuso, e da forma como aprendeu, errado, como uma mulher devia ser tratada na sociedade. Em suma, a autora conta da dor de relacionamentos abusivos e tóxicos e dolorosos com os homens de sua vida.

No amor, Rupi escreve sobre o amor materno e os amores românticos, que apesar disso, não deixam de ser amores empoderadores, como no poema "não quero ter você/ para preencher minhas partes vazias/ quero ser plena sozinha / quero ser tão completa/ que poderia iluminar a cidade/ e só aí/ quero ter você/ porque nós dois juntos/ botamos fogo em tudo." Rupi nos faz querer esse amor. Além de poemas fortes que inspiram um relacionamento saudável, vemos desenhos que propõem genitálias no ápice do sexo, bocas, corpos que se tocam, roupas ao chão, silhuetas. Todas as peças necessárias para alguns poemas do livro conterem uma experiência diferente.

Na ruptura, o apego e a partida de quem se ama. Nessa parte encontramos poemas amorosos de saudade, mas que também demonstram uma dependência quase que total do ser amado. No entanto, mais uma vez traz o empoderamento de forma a trazer força e consolo ao coração que foi partido, terminando com o poema "o jeito como vão embora diz tudo".

Na cura, Rupi finalmente no leva numa jornada de amor e respeito próprio, onde redescobrirmos a força de sermos belos em nossa individualidade e da importância de não depender do outro para ser feliz.

Em todas as partes, a autora nos dá um show de poesia e de arte visual, com ilustrações sugestivos e propõem uma sensualidade que, particularmente, nunca vi em uma livro antes. E um show para o cérebro e para os olhos. 

(Por Menina Huxley)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Resenha: "Dragon Ball Super: Broly"

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É incrível como esse gênero de animes shounen tem se reciclado a um ponto tal em que franquias como Dragon Ball, One Piece, Jojo's Bizarre Adventure e até mesmo obras não tão badaladas/aclamadas, como Saint Seiya (Cavaleiros do Zodíaco), em geral quase quarentonas, possuem lançamentos recentes e bem atuais. Afinal, este é um gênero tido por muitos como antiquado e simplório, de tramas  em geral pouco desenvolvidas, personagens clichê e um foco bem forte nas lutas.

O exemplo mais interessante do sucesso dos shounen dos anos 1980 nos dias atuais é, sem dúvida, Dragon Ball. A franquia soube se renovar e produziu o recente anime Dragon Ball Super, que ficou no ar por três anos ininterruptos e conseguiu, sobretudo nos episódios finais, uma audiência comovente nos países ocidentais, sobretudo na América latina, onde Goku e c&a são muito populares. Algumas localidades nesses países - e aqui no Brasil também - organizaram verdadeiros eventos de exibição dos episódios finais do Torneio do Poder, levando multidões de pessoas para assistirem a luta final do anime. Apesar disso, o anime entrou em hiato, restando a nós apenas especular sobre uma eventual volta em 2019.

Mas já no começo de 2018, pouco antes do fim da série, a TOEI Animation havia anunciado que um novo filme de Dragon Ball seria lançado, no mês de dezembro. Especulações davam conta de que Yamoshi, um dos primeiros da raça seria explorado nesse novo filme. Mais adiante, porém, o nome do mesmo foi anunciado: "Dragon Ball Super: Broly". O longa abordaria a história de Broly, um personagem já existente e que havia sido utilizado em três longas da franquia. A expectativa da audiência, então, se dividiu: alguns achavam que era uma péssima ideia canonizar Broly, já que ele era, de fato, um péssimo personagem em seus filmes como antagonista. Outros já eram mais otimistas, vendo na volta do personagem uma oportunidade para que ele fosse melhor trabalhado.

Felizmente, não demorou muito para que a TOEI e a Fox Film do Brasil anunciassem a chegada do filme às telonas brasileiras em 2019. E o melhor: localizado pela UniDub, de propriedade de Wendel Bezerra (a voz original do Goku), um estúdio conhecido pela imensa qualidade dos trabalhos de dublagem.

Mas bem, chega de enrolação. Vamos ao que viemos. Afinal de contas... é isso tudo mesmo?

Bem... Sem muita enrolação: Sim, o filme é muito bom. 

Em primeiro lugar, o já citado trabalho de dublagem é excelente, com todas as vozes clássicas que estavam disponíveis. Os atores de voz estão super à vontade em seus personagens, com destaque para Alfredo Rollo na voz do Vegeta, que parece ter conseguido o tom de voz ideal para o personagem, num nível próximo ao já visto em Dragon Ball Z e o excelente trabalho do Dado Monteiro, voltando a fazer a voz do Broly. Menção honrosa aqui para Felipe Grinnan, na voz do Whis, pois produz algumas das cenas mais divertidas da série desde "Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses", em 2014. De fato, é um dos maiores achados da franquia desde então. Algumas substituições de vozes foram feitas, mas não chegam a comprometer a qualidade do produto final. O caso mais notório foi a substituição da voz do Goten, mas ele só tem uma ou duas falas. 

Mas vamos lá: Como já dito, é muito bom. Talvez o melhor produto audiovisual de Dragon Ball já feito. A animação consegue manter um nível de qualidade excelente durante toda a fita, mantendo uma ótima dinâmica entre os estilos de animação a cada momento. É possível identificar as diferenças entre esses estilos a cada momento, o que é, sem dúvida, muito interessante, ainda mais considerando que o nível se mantém.

O longa segue a estrutura de três atos, mas aqui ele tem uma destoada que pode incomodar algumas pessoas. Era pretendido que a fita fosse mais longa, mas teve a duração reduzida para 1h41min. Ainda assim, é o filme mais longo da franquia. Contudo, isso parece ter prejudicado um pouco a estrutura narrativa, com um primeiro ato que, embora excelente, é muito longo, um segundo ato que oscila entre o razoável e o bom e um terceiro ato um tanto quanto atabalhoado.

O primeiro ato mostra parte da história contada no mangá Dragon Ball Minus, onde tivemos uma nova perspectiva de Bardock (pai de Goku) e, pela primeira vez, o contato com a mãe de Goku, Gine. Aqui, precisamos enaltecer a sensibilidade do roteiro, mostrando um Bardock muito mais sensível e preocupado com seu filho Kakarotto. Isso adicionou uma ótima camada de profundidade ao personagem. Nesse primeiro ato, também nos é mostrado um pouco mais do conceito visual do universo em Dragon Ball. A exploração de lugares longínquos e estranhos remete muito a space operas como Star Wars e Star Trek, o que é uma ótima sacada. Também vemos a construção do antagonista principal, Broly, em sua relação com seu pai, Paragus, que é um dos pontos fortes da trama e que discutiremos mais adiante.

Daí pra frente, o roteiro se utiliza muito bem do humor característico de Akira Toriyama, criador da série, para produzir cenas hilárias e que aproveitam bastante a subversão da expectativa. Alguns fãs que conhecem outras obras de Toriyama, em especial o humorístico Nekomajin, vão perceber essa pegada de humor, presente, sobretudo, nas personagens da Bulma e do Freeza. Falando em Freeza, o imperador do mal parece ter sido melhor trabalhado desde o final de Dragon Ball Super, e não me espantaria se, mais pra frente, ele se tornasse muito mais um arquirrival de Goku & Vegeta do que propriamente um vilão. 

Da segunda metade do segundo ato pra frente, porém, é porradaria até o final. As cenas de luta seguem um ritmo de tirar o fôlego, aliado a um espetáculo visual de cair o queixo, tanto das animações quanto dos efeitos visuais das transformações e poderes dos personagens. Aqui, também, entendemos um pouco mais sobre a construção de Broly como personagem, com o roteiro abordando a temática da relação abusiva entre pai & filho com uma delicadeza pouco antes vista em Dragon Ball. No filme, Broly é sistematicamente abusado por seu pai, Paragus, que faz, de forma figurada e literal, um tratamento de choque com seu filho, utilizando-o simplesmente como uma escada para satisfazer suas próprias ambições e vinganças. 

Mas, como dito anteriormente, a duração do projeto prejudica a organização dos três atos, e isso aqui é sentido na forma como o roteiro avança. O desenvolvimento do antagonista numa estrutura de Deus Ex Machina pode até não ser exatamente ruim, já que é muito consonante com o que já vimos em Dragon Ball Super, mas acredito que pesaram um pouco a mão nesse aspecto, tornando o desenvolvimento de Broly rápido demais até mesmo para os padrões do anime. E isso é sentido principalmente no terceiro ato, no qual cenas que - a meu ver - deveriam ter mais tempo de tela (porque são vendidas como simbólicas no trailer e parecem ter grande impacto), ocupam apenas pouquíssimos segundos na fita total. Esse aspecto, porém, não chega a comprometer a qualidade do produto final. 

O filme está sendo aclamado pela crítica em geral como sendo o melhor da franquia, e está levando muita gente ao cinema. Na sala onde eu estava, tinha até uma boa quantidade de crianças e adolescentes, embora o maior percentual de público deste filme seja de adultos. Houve algumas preocupações com a pirataria, mas o resultado da bilheteria mostra que Dragon Ball ainda é muito amado no país e que há público-alvo para filmes e jogos da franquia em terras tupiniquins. 

No final das contas, Dragon Ball Super: Broly é um ótimo produto, digno de ser prestigiado no cinema, e vale cada centavo e tempo gastos para tanto.

Sendo assim, fica a dica: se vocês querem que mais produções de Dragon Ball e animes como um todo cheguem ao Brasil, VÃO PRESTIGIAR ESSE FILME NO CINEMA! 

E, se possível, comprem o DVD/Bluray também, se for lançado.

(Winston Lecktor)